Centro Nacional de Paraquedismo, Boituva - São Paulo
(11) 98111-2233

O Processo de Julgamento

Erros humanos são a principal causa de acidentes aeronáuticos no mundo todo. Estima-se que ao longo dos últimos 20 anos, houve aumento de 20% para 80% do erro humano como causa imediata em acidentes e incidentes em indústrias de sistemas complexos de alta tecnologia.

Em qualquer área onde tecnologia interage com os seres humanos, erros são previstos e admitidos dentro de um limite aceitável. A eliminação de todos os erros e acidentes é impossível. Falhas seguirão ocorrendo apesar dos esforços de prevenção, mesmo porque não há sistema humano livre de falhas. Riscos controlados podem ser aceitáveis dentro de um sistema implicitamente seguro, desde que gerenciados para manterem-se em um nível aceitável.

“Segurança operacional é o estado em que o risco de lesões as pessoas ou danos aos bens se reduzem e se mantêm em um nível aceitável, ou abaixo deste, por meio de um processo continuo de identificação de perigos e gestão de riscos.”
(ICAO Doc. 9859 – SMM, 2009)

 

Julgamento e tomada de decisão são habilidades mentais que podem ser aprendidas por qualquer piloto (KRAUSE, 2003). Alguns pilotos experimentam dificuldades temporárias na habilidade de decidir em casos isolados de fadiga ou stress. Outros apresentam falta de julgamento consistente ocasionada por traços de personalidade submissa ou influência social.

“Você não pode resolver um problema se não reconhecer que tem um problema e se não entender a natureza do problema”
Judith Orasanu, Ph.D., NADA-Ames Research Center

 

A avaliação das situações é um processo de reconhecimento e avaliação através de monitoramento e estímulo, que leva a uma boa consciência situacional. Um dos estudos conduzidos pela National Transportation Safety Board (NTSB) concluiu que em acidentes aeronáutico, um peso significativo foi atribuído ao item “desatenção por falta de monitoramento do estado de vigilância”. Monitorar conscientemente a situação é o processo de reconhecimento e avaliação, e apenas é efetivo para o piloto quando ele reconhece e entende a precisão dos dados que está observando.

De acordo com Krause (KRAUSE, 2003), há dois princípios fundamentais de um bom julgamento, e portanto uma boa tomada de decisão: Percepção e Habilidade de distinguir soluções certas e erradas. Essas ações revelam muitas camadas de habilidade mental: perceber é tornar-se consciente, observar, detectar e compreender a situação; e distinguir soluções envolve reconhecer a situação, observar de forma detalhada e clara e compreender as distinções entre as alternativas corretas e incorretas.

O processo perceptivo dos seres humanos passa pela experiencia do mundo através dos cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. As pessoas confiam em seus sentidos, e reagem àquilo que percebem, mesmo que as percepções sejam falhas e não reflitam a realidade objetiva. A medida que aumenta a diferença entre a realidade percebida e a objetiva, aumenta proporcionalmente a possibilidade de incompreensão, frustração e conflito.

Basicamente há quatro habilidades essenciais no processo de percepção: vigilância da consciência situacional, observação, detecção e compreensão. Ao término do processo perceptivo, a decisão esta estruturada. A capacidade do piloto de distinguir entre várias possíveis ações é a conclusão do processo de aplicação consciente destas quatro habilidades perceptivas.

A compreensão está intrinsecamente relacionada aos conhecimentos explícitos e tácitos dos operadores, o que demonstra uma necessidade de uma formação mais abrangente e adequada, de forma a permitir que os mesmos possam ter o conhecimento da funcionalidade de todo o sistema.

Embora as habilidades necessárias para uma boa tomada de decisão possam ser treinadas, há algumas influências que podem prejudicar tal processo. Abaixo estão mencionadas as sete categorias que podem afetar o julgamento (KRAUSE, 2003):

  • Cognitiva: capacidade de processar informação, a habilidade de recordar conhecimento.
  • Moral: influência de valores éticos, desrespeitar leis, ignorar normas e padrões de operações.
  • Emocional: Stress, ansiedade, medo, tédio.
  • Fisiológica: Fadiga, doenças, álcool, medicações, drogas ilegais.
  • Social: pressão para concordar ou corroborar a decisão de um superior, pressão do companheiro de cabine.
  • Personalidade: traços arraigados.
  • Atitude: como a pessoa reage em uma situação.

Alguns elementos são difíceis de mudar por serem inerentes da pessoa, como capacidade cognitiva e traços e personalidade. Todavia o piloto pode identificar quando está sob influência delas e aprender como alterar o processo de decisão consciente das circunstâncias que o afetam. Assim, conhecer suas limitações é o primeiro passo para segurança aérea.

Deixar um comentário