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Saltos HALO (High Altitude Low Opening)

Imagine o amigo paraquedista e leitor, saltar à noite, saindo da aeronave a 33 mil pés, numa temperatura ambiente de -50 graus Celsius, carregando entre 40 e 60 Kg de equipamento e armamento, executar uma queda livre controlada de quase dois minutos, comandando o paraquedas a 3 mil pés, pousando numa área não demarcada e não sinalizada. Tudo isso somente para iniciar o cumprimento de uma missão.

A técnica e os procedimentos descritos acima fazem parte de uma área única do paraquedismo militar, conhecido pela sigla HALO (High Altitude, Low Opening).

Os saltos HALO foram desenvolvidos pelos militares para operações secretas em território inimigo – o objetivo é impedir a detecção da aeronave e dos paraquedistas.

Obviamente não é um procedimento corriqueiro ou para ser executado por inexperientes, sendo normalmente efetuado por militares de forças especiais, com treinamento específico para esse tipo de infiltração.
Essa modalidade de salto começou a ser estudada de maneira mais organizada nos anos 60 do século passado, na esteira de uma série de pesquisas acerca das chances de sobrevivência de pilotos de combate que ejetavam em grandes altitudes.

De maneira similar ao componente humano, os equipamentos utilizados para saltos HALO são igualmente especializados. Roupas com isolamento térmico para suportar as baixíssimas temperaturas, sistemas de suporte à respiração, velames especialmente desenvolvidos para suportar as condições de abertura e navegabilidade, sistemas automatizados de comando de paraquedas, baseados em cápsulas aneróides e disparadores elétricos que permitem o comando sem que o paraquedista necessite desfazer a posição estável de queda livre são somente alguns dos ítens que fazem parte da operação de um salto HALO.

No tocante aos riscos fisiológicos, os saltos HALO apresentam riscos especiais. Em altas altitudes (mais de 22.000 pés, a concentração de oxigênio na atmosfera da Terra é baixa e essa condicão pode levar à hipóxia Além disso, uma ascensão rápida no avião de salto sem todo o nitrogênio liberado da corrente sanguínea pode levar à doença descompressiva.

Um salto típico de HALO normalmente demandará um período de pré-respiração (30 a 45 minutos) antes do salto, em que o paraquedista respira 100% de oxigênio para retirar o nitrogênio de sua corrente sanguínea. Além disso, como mencionado anteriormente, todo o equipamento de salto é equipado com cilindros de oxigênio para consumo imediatamente antes da saída da aeronave e durante o salto. Riscos adicionais podem vir de condições médicas que afetem o paraquedista, como por exemplo, tabagismo, uso de álcool e drogas (incluindo anti-histamínicos, sedativos e analgésicos), anemia, excesso de monóxido de carbono no sangue, fadiga e ansiedade podem levar a que um paraquedista esteja mais suscetível à hipóxia.

Além disso, problemas com o cilindro de oxigênio e durante a troca do pré-respirador para o cilindro podem resultar no retorno de nitrogênio à corrente sanguínea aumentando a probabilidade de doença descompressiva ou hipoxia. Isso pode acarretar a perda de consciência e, portanto, ser incapacidade de comandar seu pára-quedas. Um atleta ou militar que sofre de doença descompressiva pode morrer ou ficar permanentemente incapacitado devido às bolhas de nitrogênio na corrente sanguínea.

Outro risco é da baixa temperatura em grandes altitudes. A uma altitude de 35.000 pés, com temperaturas ao redor –50 ° C o indivíduo e o equipamento podem sofrer congelamento. Para evitar essa possibilidade, os praticantes de HALO geralmente usam roupas de baixo de polipropileno e uma sobreposição de roupas em camadas para evitar isso, destacando-se atualmente o Goretex.

O primeiro salto de combate HALO conhecido ocorreu durante a Guerra do Vietnam, onde um Grupo de Comandos do time SOG Recon Team Florida efetuou um HALO de 18.000 pés diretamente sobre o Laos.

Desde então a técnica HALO vem sendo utilizada em situações reais, principalmente por operadores de forças especiais dos EUA e Inglaterra.

Saltos HALO no Brasil

No Brasil, os pioneiros em HALO, cujo nome formal é Salto Livre Operacional à Grande Altitude (SLOp Gr Alt), são do 1o Batalhão de Forças Especiais (Gorros Pretos) e da Companhia de Precursores Pára-quedista (Gorros Vermelhos), ao final dos anos 80, executando HALO a 30 mil pés.

A experiência adquirida permitiu a subseqüente criação de uma doutrina e metodologia para o Salto Livre Operacional à Grande Altitude. Atualmente a Brigada de Infantaria Para-quedista possui uma equipe de Instrução responsável por documentar e aplicar a doutrina às tropas que dela necessitam.

Mudando o enfoque, existem pelo menos duas empresas civis que oferecem pacotes de saltos em condições similares, obviamente excluindo-se a necessidade de carga de equipamento e armamento. O nível mínimo exigido é USPA categoria C, com pelo menos 250 saltos, além de atender um rápido curso preparatório.

Para finalizar, com um alento que o HALO pode estar ao alcance dos pobres mortais que não fazem parte do restrito círculo de operadores de forças especiais, é bom lembrar que o ator Tom Cruise, aos 56 anos, foi a primeiro ator a executar um salto dessa modalidade no ano de 2018 para o filme Missão Impossível – Fallout.


Artigo escrito por Lúcio Meurer – Engenheiro de Computação, Paraquedista USPA e CBPQ e oficial da reserva da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro.


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